terça-feira, 7 de julho de 2009

Eu madrugo insone. E perco a noção de espaço, e meu tempo desfalece e acorda turvo. Eu entardeço. Eu perco a manhã azul, a tarde é sempre um pouco mais opaca. Eu vislumbro a noite quieta, eu anoiteço. Eu me escureço do azul preto da noite.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Ingenuidade - Caetano Veloso

Não,eu não podia me enganar assim
com uma criança qualquer
que veio ao mundo bem depois de mim
Eu não reclamo o que ela fez
só condeno a mim mesmopor ter me enganado outra vez
Eu fiz o papel de um garotinho
quando arranja a primeira namorada
A ingenuidade acredita em tudo
porque do amor não entende nada
Eu que tantas vezes machuquei meu coração
e levei tantos anos pra curar
fui tornar a molhar meus olhos
coisa que eu luto a tanto tempo pra enxugar

quarta-feira, 22 de abril de 2009

(M)eu pedaço de madeira

Eu decido mudar e me empenho e me embrenho dentro de mim;
E conversar me tem sido um refúgio, tem-me sido a descoberta de mim mesmo.
Eu escuto na voz dos outros meus sussurros internos.
E vou me construindo.
E desconstruindo.
E construindo...
E vou em achando.
E me perdendo.
Vou me dando e desfazendo.
Sou um pedaço de madeira pronto pra ser esculpido.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O da garota que chorara na praia


Eu, na minha solidão nostálgica de sexta-feira à noite, só quero chorar. E nem ao menos posso. Eu finjo ler enquanto alguém me olha, mas por dentro eu choro uma solidão incontida, que quase grita. Sim, eu choro e nem ao menos eu que me faço companhia percebo. Só queria não estar. Eu tenho saudade de algo que nem ao menos é concreto, eu tenho sede de viver um passado que não existe. Eu tenho o toque, eu tenho o beijo, eu tenho nada. Eu estou vazio. Vazio do meu sentimento completo. Ele é vazio. Ele não me diz nada. Ele me faz infeliz, hoje, esse sentimento. E nem era hora nem lugar de se estar andando na areia da praia e chorar com o pôr-do-sol e sair da praia com o rosto inchado, e os olhos vermelhos. Ele compartilhava da mesma solidão. E eles se completariam tão perfeitamente, como que por milagre tivessem sido feitos um pro outro. E ela era tão distante e ele tão ausente. Seus caminhos curvos se encontravam e eles nem se conheciam. Eles se conheciam de pensamento que eles nem sabiam que tinham, eles frequentavam a mesma biblioteca, quase que aos mesmos dias, para terem as quase mesmas leituras. Enquanto ela lia romances, ele vivia a poesia. Quando era ela, ele vivia os romances. E mesmo de uma vez lerem o mesmo "Cem anos de solidão". E terminaram quase ao mesmo tempo. E eles nem ao menos se davam conta do quão próximos eles eram.
"Tu lestes mesmo Gabriel Garcia?", perguntava ela incrédulo ao menino que em sorrisos lhe dizia que sim. Que lera, e que chorara, e que vivera. Os olhos dela brilhavam como que ao despertar de um sentimento novo e ela nem sabia o que era isso. Ela estava amando e pra ela era como se apenas lesse. Era o mesmo prazer, era o mesmo gostar. Ela só queria estar com ele. Mas ele tinha medo. E mesmo essa noite de sexta-feira não me acaba e eu aqui invento histórias de uma menina que estava um dia caminhando na praia e que saíra dela de olhos vermelhos de chorar e que nem conhecia o menino que frenquentava a mesma biblioteca que ela, praticamente nos mesmo dias e lia os mesmo livros. Meus olhos ainda choram pra dentro, e mesmo me tendo antecipado os fatos, eles ainda não se amam, pois nem se conhecem. Eles nem ao menos leram ainda "Cem anos de solidão", não descobriram ainda suas solidões. Sabiam que doia, que era um frio que percorria na altura do peito ao início do estômago, mas nunca lhes disseram que aquilo se chamava angústia. Pobres crianças que tão cedo vivem dores de adulto. Ele ainda brinca de bila no meio da rua aos gritos com os outros garotos e sua prima que todos chamavam de machinho, e que sempre batia nos garotos e corria chorando pra casa assombrada. Ele tinha vergonha, mas ele amava sua prima. Mesmo querendo esquecer que foi com ela que quando no início da adolescência ele aprendera a ser homem, ou mesmo menino. Ele parecia que nunca crescera. E mesmo quando demonstava tanta maturidade, era apenas um menino. Mesmo quando tivera um filho com a menina que na praia chorava e que na mesma biblioteca que ele lia quase os mesmos livros. Ela não, já sempre mais madura que sua idade. Ela era tão menina por dentro, mas externava uma maturidade assombrosa, que mesmo preocupava o pai. A mãe morrera quando do nascimento da segunda filha. Não sobreviveu nenhuma das duas. Ficou a dor pro pai que as perdeu. Ela tinha dois anos, sente falta da mãe, mas mais da presença de alguém que o valha. O pai pouco procurara mulheres. Enviuvou do amor com a morte da esposa. Bem tivera suas noites fora de casa em que ele esperava a menina que na praia chorara dormir para sair, e ela fingia que dormia pra que ele saisse. E que fingia que ainda dormia quando esperava que ele chegasse para que pudesse saber que ele estava bem.
"Mas eu não sei ler alto". Ele dizia numa inoscência difícil de resistir. Ela apensa sorria e lhe dizia que era o mesmo que ler com o pensamento, só que era preciso externar. Falar com a voz de fora. E ele gagejava e ela desistia e lia por ele. Liam poemas que nem bem entendiam e se enchiam de um sentimento bom. Ele até chorava, às vezes. E ela se sentia pequena porque achava que ele entendera o poema e ela nem ao mesmo sabia o que significava "entorpecente". Mas mantinha um ar de quem bem entendia, até sorria de lado quando do dito dessas palavras estranhas pra que ele visse que ela entendia sim. Quanto mais escrevo, menos sinto minha dor, e mais eu as tranfiro para essas pobres crianças. Eles talvez um dia nem lembrem, quando estiverem grandes e tiverem o filho. Será um menino, terá o mesmo nome do pai dela. Mesmo contra a vontade dele. "Isso é destinho pra esse pobre desgraçado que acaba de nascer?". Bem certo estava o avô. Infeliz da criança que cresceu e morreu dos males do amor. Eles eram novos. Pouco entendiam do que acontecia com eles. Achavam que namoravam. Ele emprestava livros pra ela com uma rosa dentro, como um jesto de carinho. Ela nem começava os livros e dizia que os lera, mas que não explicaria a história porque ele já as conhecia. E a rosa ainda marcava a mesma página de quando ele lá a colocara. Alguns anos depois, o filho é quem recolhe os restos das flores dos livros do pai que ele um dia lera e depositara no túmulo da mãe. Só assim ela as teria recebido. Ela que de bom grado aceitava as leituras, mais para agradá-lo. Ela era amante das suas próprias leituras. Ela chegou mesmo a ler alguns dos livros que ele lhe emprestara, mas alugando na biblioteca. Mas os de lá não tinham as rosas dentro. E ela nunca o soubera. Ele não se magoava. Fingia que acreditava nela e isso lhe bastava. Seu amor, que na época ele nem bem sabia que era amor, perdoava os maus tratos. Fora mesmo na biblioteca que eles se falaram a primeira vez. Ela estava entrando e ele saindo, e por acaso, ele que tava sem os óculos porque só os usava quando ia ler, mesmo que cego quando sem eles, esbarrara nela e derrubara seus livros. Ela irritou-se um pouco, mas o jeito tão desconcertado dele fez com que ela se apiedasse e esquecesse. No outro dia, quase que acontece o mesmo, mas ela deixou que ele passasse antes dela, até lhe dedicou um sorriso, que ele timidamente aceitou com uma contorsão facial que mais parecia de desagrado, mas ela entendera que fora um sorriso. E começaram a se falar sempre que se encontravam por lá. E eram muitas as vezes. Seus horários de leitura coincidiam. Ele passava mais tempo lá do que ela, ela só queria mesmo o tempo da sesta para distrair-se um pouco com a leitura. Na verdade ele sempre mais que ela, no estudo, na leitura, no amor. Ela, mesmo quando amava, parecia fria. Ele, mesmo quando amava, parecia que não sabia que estava amando. Era a mesma criança. Andando na praia, ela dissera a ele que um dia chorara, e que com os olhos vermelhos saíra à rua. Ele não a entendia e sentia vontade de chorar por ela. Ele que não chorava a não ser com a literatuta. Ele não sabia que sofria, ele não sabia que amava, sabia que vivia, porque disso não entendia. Não entendia como que se vivia, e talvez por isso vivesse mais que ela que achava que sabia que vivia. Ele desconcertava-na. Ela não sabia ser ela na frente dele, se sentia sempre menor. Ele que era tão pequeno, que se sentia tão pequeno e que achava ela tão grande. Mesmo depois de casado, foi a mesma resignação. Não a de quem obedece, mas a de quem respeita, de quem ama, mesmo que ele não soubesse que amava. Quando ela falara em casamento, ele disse que se sentia ainda tão criança e já posto com seus 25 anos fizera a promessa de amá-la e respeitá-la achando aquilo o maior divertimento. Mas ainda na biblioteca, eles demoraram muito a viver outros espaços. a praia foi o primeiro. Depois a casa dela. O pai não via maldade, aquele tolo de óculos grandes e de ombros curvados e de pose desajeitada não representava perigo. E fora justo ele que a tirara de casa e lhe fadara o destino de morrer só na velhice. Acho que minha dor amenizou e é preciso findar a história. Os dois cresceram. E descobriram que se divertiam além da leitura. E um dia beijaram, e um dia sentiram saudade, e uma se ligaram, e um dia se encontram, e um dia se amaram, e um dia morreram. Fim.

Ela que é lá de fora

Eu agora espero que ela chegue e me abrace e me queira e me ame. E ela nem ao menos chega. Ela é distante. E eu a espero. Espero com a angústia de vida que vai se esvaindo com o passar das horas, que se consome em frio que perpassa o peito e adentra a alma e esfria a carne, e esvazia a mente. E são só minutos. E eu sou só vazio. E eu sou só sorrisos se ela chega e me diz meu nome. Mas ela não chega, ela não diz, ela nada. E eu tanta coisa. E mesmo os minutos do meu tempo que não passam. Eu não choro, eu vazio. Eu estralo os dedos e suspiro forte, mas eu sou fraco, eu pouco braço e muito peito. Eu desfeito de razão, sou sentimento. Eu choro agora. Eu sou sozinho. Ela tá lá, lá onde... Lá onde? Eu aqui espero por ela. Mas ela é de lá fora. Eu sou de daqui de dentro. Aqui dentro frio, sozinho, eu sou vazio. Ela é completa. Ela que é lá de fora. Lá fora que de tanto sol, aqui dentro a chuva da melancolia. E o frio e o vazio. E o não-ela, que tá lá fora. Eu vou me embora. Parado no mesmo lugar, espero por ela, que não chega, que não me abraça, que não me chama. Ela não me ama.

Os meus cem anos de solidão


De quando eu entendi que ler agora "Cem anos de solidão" nada mais era que uma metáfora da minha própria vida. E é preciso sentir os pêlos arrepiarem ao fim da leitura para perceber que era de você. Era sobre você. Melquíades manuscrevia minha própria história com a nomeação dos Buendía. E eu nada mais era do que Úrsula.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Vazio